Não matarás (inconclusivo)...

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"The functionalist orientation of modernism, by definition, reduced artefacts to their function. In this vision it is not the object that counts, but the function it fulfils. (...) Post-modern design, in its turn, is trapped within another form of Platonism. Here products are not reduced to their function but to their meaning (...) become icons, symbols or signs. They do not even need to be durable anymore (...) designers are not primarily concerned with things, but with ideas." - Verbeek & Kockelkoren, in "Eternally Yours" (010 Publishers)

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Algo ficou para trás. Algures no processo de transição, entre os packs de regras que ditavam linearidade (utópica porque platónica) de pensamento e de criação. Há uma degradação progressiva de alguns valores e também uma grande necessidade em restaurar-nos. Talvez tenha sido natural. Ou talvez seja algo que teremos oportunidade de explorar como uma vantagem, uma arma de sobrevivência.
Num objecto não é só uma questão de materialidade como referente à matéria em si, mas também referência ao valor que dela emana – a alma do objecto. Quando se fala em materialismo frequentemente associamos a algo de negativo. Quase sempre consideramos materialismo como algo incapaz de carregar uma simples alma. Mas é preciso perceber o que é afinal o materialismo para conseguir afastar esse negativismo.

Os fast-food carecem de valores nutricionais, e doenças vindas dessa má alimentação começam a aparecer. A obesidade material aumenta, e pior, de forma subaproveitada. As consequências poderiam ser catastróficas, não houvesse esta vontade explícita e humana. Esta necessidade em recuperar o amor. As ligações afectivas com os objectos - os nossos amigos de evolução.

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"We should not be able to obtain meaning and objects separately." - Verbeek & Kockelkoren

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Somos capazes de corrigir isso. O que faltará aos objectos pode ser algo que permanece simplesmente adormecido pelas tais correntes do passado. A desenfreada corrida ao novo fez-nos perceber que não existe amor em objectos de curta duração. Resumindo, um aborto material. O contrário seria impossível porque teríamos que sofrer demasiado para nos divorciamos do nosso objecto querido. Um objecto também pode ser sentido, chorado, amado. Estes sentimentos de afectividade com os objectos ainda existe e está algures entre o instinto humano, porque revela-se diariamente em substitutos, por vezes mais fracos. Portanto, um objecto-amigo também pode ser um objecto regenerador, uma ferramenta de saúde social.

Agora que assistimos a uma nova revolução tecnológica, a retrospectiva surge inevitavelmente. Percebemos que em tempos houve uma relação íntima com as coisas. Uma relação tão forte que nos levou a enterrar alguns deles connosco, e isso sempre foi cultivado ao longo de grande parte da história da humanidade. Por vezes choramos o vazio, esquecendo-nos que a criação é o ritual que nos distingue dos outros animais.

Historicamente, o kitsch detém algumas respostas. Uma análise aproximada ao fenómeno kitsch leva-nos a definições múltiplas e difusas precisamente porque ainda estamos dependentes dele. Mas também porque é um tabu artístico. Diacronicamente, o surgimento do kitsch pode significar o início desse "cortar relações" com a alma material. Não porque foi o responsável por esse corte, mas porque foi objecto de adoração afectiva. Aquilo que era considerada a simbologia da alma, veio a ser conotado com o valores negativos pelos movimentos avant-garde e pelo capitalismo geral. Porque o kitsch era tão "mau" que impedia a troca fácil, a aquisição de novos objectos, a movimentação da indústria e do dinheiro.

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"We think scripts provide a good starting point for thinking about design in a more materialistic way. (...) products should allow restoration to readiness-at-hand when the familiarity is broken. (...) it would be wise to design them from the perspective of their engaging capacity. One way to do this would be to bridge the gap between machinery and commodity." - Verbeek & Kockelkoren

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Para ganhar confiança nos objectos é preciso operar socialmente e em cortes profundos.
Scripting seria a forma mais directa de edição. O script é a linha de comandos que permite a edição do código raiz - a modelação da própria natureza. Mas os objectos actuais não são processados com isto em mente, nem as pessoas estão preparadas para tal. No entanto, todos os dias novas linhas de comandos são criadas, novos códigos. Páginas e páginas de programação são deitados fora. Pilhas de material sem nexo e o seu meio de reprodução é o copy-paste. No final teremos ruído suficiente a abarrotar o nosso disco rígido de informação excessiva e desnecessária. Abortos materiais em formatos "Design", numa atitude "Fashion".

O design como disciplina é também um processo de raiz artística. Como tal precisamos de ligar também o instinto na sua aplicação. E não é anti-científico pensar de forma instintiva, muito pelo contrário o o design sempre deu provas de ser uma ciência do instinto e da arte. Foi até o instinto que nos trouxe o kitsch numa operação de design social. Temos a certeza de que controlamos o output, somos natureza e criamos natureza. Todos estes restos de programação podem ser assimilados à matéria da mesma forma como foi disjunta - basta inverter o processo.

Temos assistido a uma emancipação da parte das artes mais conceptuais para formatos anteriormente inimagináveis. E por que não deixar que estes formatos guiem o nosso caminho afectivo? Afinal são formatos cada vez mais populares e assentes no instinto - New Media Art O amor inspira-nos e surge sempre de forma não planeada.

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Pedro Fernandes, 2009